Sexta-feira, Junho 05, 2009

A última - primeira

Vinte, as rosas sobre a cama
- teu leito.
Nelas nos deito,
nessa noite derradeira já esquecida.

Das vinte, a que me deste sobrou,
vermelha e bela,
enfeitada à lapela.

Muito tempo passou que a guardei
rubra e terna,
perfumada ainda
da nossa manhã clara conjunta,
perdendo-se que ia
a sua estrutura de flor.

Ficaram as espinhadas
pétalas secas de amor
em que tropeçava
nas saídas atrasadas
de todos os dias,
despedidas tristes, murmuradas.

Importa sair da beleza derradeira
sem hesitação nem demora:
e atirei cruel a última - primeira
das vinte rosas pelo peito fora.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Os dele, os dela

Era um enleio de presságios,
os dele, os dela,
amor e meio dado
um fio de luz cinza
desprendendo-se da janela.

Era um navio,
abandeirado de cruz rubra,
e, enfunando, a branca vela
gemidos assoprados de língua turva:
- os dele, os dela.

Era uma confusão, aquilo:
mastro, escotilha, cordame
e escuro porão resguardado
rum-ando ao travo odoroso do paraíso,
infame e tranquilo alvo
de raso-soldado indeciso.

Eram uma ilha,
distante e bela,
enclavados da oceânica solidão,
receio de naufrágios:
os dele, os dela.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

Chuvas de Maio

Chuvas pesadas de Maio
nem fico nem saio
nem remo nem me afundo.
Abrigo as palavras em gula seca
e dissolvo na boca
a vontade de aliviar o mundo.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Vulto na janela

Sei que espreitas pelo vidro triste
e lhe encostas o ouvido
auscultando a minha voz.

Sei dos teus caminhos desviados
a passar o meu,
das sombras nubladas
em cuidados que te amparam,
da procura fugidia
de me fazer um pouco teu.

Pensava que eram tuas
as mãos que me trariam rosas frescas
a cada manhã pura,
cavando a dedos de ternura
os sulcos dos amores passados.

Mas espreitas esguia pela triste vidraça,
e quando abro a porta
só o horizonte me sussurra
- o tempo de escutar também passa...

Sábado, Maio 16, 2009

Périplo

Cá vamos, andando, andando
E as coisas vão correndo:
Quando os sítios mudam de lugar
Vemos que saímos tarde.

Cá vamos, amando, amando
E as coisas vão morrendo:
Quando as pessoas mudam de lugar
Sabemos que chegámos tarde.

Então, percebendo, percebendo
Os tempos mudam de lugar,
E as coisas, danando, danando.

Esquecemos que ficámos tarde...

Domingo, Maio 10, 2009

Cruzada

Cruzo as ruas da cidade,
o chão rápido a meus pés.
No ar, vacila ainda o teu perfume de abismo,
e não é pouca a vontade de cair.
Os recantos e esquinas,
caminhadas de memórias por cumprir,
beijo de aragem - ternura
e um silêncio que entristece.

Cruzo as ruas da cidade
- ou são elas que me cruzam.
Quando chego, encontro apenas a noite:
quem me procura, passeia e adormece.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Auto-retrato

Havia um momento onde eu caía nos teus ombros e rolava.
A pele era tempo e eu nascia desse instante.

O toque era espaço nos momentos onde outro, igual, me abraçava.
Eu morria : colírio mitigado, quando existo, não vejo.

Nem boca nem lábios - bocado,
Nem olhos nem lágrimas - molhado,
Sequer ouvido ou escuta.

Apenas efémero - eterno
Apenas beijo.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

M - H - S*

Havia em nossos corpos
sítio certo para o beijo
exaustos bocados, mortos,
dos naufrágios do desejo.

Haviam os teus braços,
colo das fajãs,
onde me deitava oscilando
ao compasso das manhãs.

Havia uma ilha,
de silêncio abandono,
Inverno anunciado das águas
ainda mornas de Outono.

Haviam, ainda, peixes cintilando,
boca encardumada,
pureza branqueada rasa
em coral de marfim.

Eras, por fim, leito de areia fina,
Praia-menina, vasa cheia das marés.
E eu era apenas a onda que vagueia,
deslumbrada,
a quebrar-se a teus pés.

* Movimento Harmónico Simples

Terça-feira, Março 31, 2009

Milagreiro

Faço do vinho água
Do pão, sêmola madura
Da farinha, faço grão
Da espiga, seara.
Nascente, fermentação,
Corpo, sangue eterno que bebo,
Saciando-me de sede pura.
Face, só uma.
Ressureição, nenhuma.
Madalenas, todas,
Bodas de consubstanciação ao Pai.
Motivação, motivo:

Milagre, é viver-se, já estando vivo!

Terça-feira, Março 17, 2009

Insondável

Seria apenas um sopro
Um gesto,
Uma memória desvanecida pelo tempo.
Um desejo esquecido,
Ou um beijo.

Seria, talvez, apenas ar,
Que de nós inteiros se fez resto
Glória de eternidade prometida,
Passeio de mãos dadas,
À beira-rio.

Seria a nossa última noite
Também a primeira
Nem sei.
Seria, talvez, um entre-meio,
Lusco-fusco de dias por nascer,
Espera adiada.

Talvez fosse, apenas, a preguiça do estio,
Ou o vento,
A embalar a madrugada.

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

O que foras

Se foras pétala
E não flor
Que, mesmo eu jardim
Não couberas, inteira
Em mim

Foras folha
não árvore densa,
Sendo eu a floresta
negra desfolhada
Imensa

Se foras gota, rio
e não nascente
Que eu mar,
te não pudera, oceano
Margear

Se foras letra,
fonema
Não palavra
melopeia
Que eu, paginado tanto,
Sou apagado reescrito
Livro em branco

Pólen floema,
sal oração.
Início caminho,
temperança e acção.

Apenas grão.
sequer sistema, terra fundida
de ferro, fogo e aço
Que, eu mesmo Universo...

Não couberas, inteira,
no infinito do meu espaço.

Sábado, Dezembro 13, 2008

Cúpula

Eras de estrelas e alento
Das últimas, primeira
Minguante neblina
de mar descoberto.

Parecias tão perto
Distante
De céu, cortina.
Dás últimas, inteira.

Firmamento.

Sexta-feira, Novembro 28, 2008

Dia seguinte

Afinal teria de ficar para amanhã, o encontro tardio que se adivinhava fugaz - necessidade de descanso, cedo regresso a casa, disse. Acatei com a ligeireza de um sorriso, devolvi a promessa adiada de Sim, amanhã, e desliguei. Um pouco de desilusão, claro... mas mesmo nela poderá haver prazer, se pensada da forma certa.

Quando saí, a noite estava fria mas serena, convidando à caminhada - resolvi fazer um desvio, quiçá me surpreendesse com um encontro desejado. Ficava quase em caminho, a rota que provavelmente faria nesse seu regresso cansado a casa, e pus-me a vaguear na contra-mão do seu percurso provável. Voltei, decidi esperar sentado no banco que ponteia a porta da Igreja Calvinista, ao início da sua rua.

Esperaria até às 23:30h - doze minutos, portanto. Neles, fui criando imagens de coincidência ou desencontro, passando em revista as possibilidades do acaso, Tu, por aqui? Sim, estava nas redondezas, ou Sim, apeteceu-me ver se nos cruzávamos - sempre rodeado de uma aura de incerteza e palpitação -, com especial ênfase no aspecto cinematograficamente dramático: a contra-luz, as sombras urbanas, os corpos fechadas na armadura térmica, uma banda-desenhada elegante e moderna, em tons de cinza-preto e cores ténues, um amarelo desvalido a adornar a tristeza da urbe. Talvez me devesse levantar, re-assumir a caminhada em contra-mão e confiar no destino - se, em Inglês, existe Destination e Destiny, para nós, lusos, é tudo o mesmo -, podia sempre camuflar-me no sobretudo monocromático, e já tinham passado dez minutos...

Discreto no meu poiso, sustive a respiração quando passou, às 23:29h, com pontualidade doentia e quase mágica de horário desconhecido, dum limite que era só meu. Fiquei a olhar ao longe o ritual de chegada-preparação-entrada: um carreiro de árvores em oposição ao de casas e eu ao centro, guardião longitudinal das surpresas da fortuna. Hesitei entre dar sinal de vida, atrair ao faro aguçado da curiosidade de um qualquer desafio, simplesmente ir, para depois partir, tardiamente, fugazmente.

Entretanto, era já a rua quase deserta, não fora por mim, árvores e casas. E fiz-me à contra-mão destinada, na promessa sozinha e adiada. Mas sabia bem, aquele frio sabendo a sombra, recusa e dia seguinte...

Terça-feira, Novembro 25, 2008

Nevou

Nevou.
E acorremos ao manto branco
Com a alegria dos petizes.

Nele deixámos as pegadas
Das infinitas conversas
E a saliva das bocas ansiadas.

O vento passava seco,
frio e suave
e embalava-te os cabelos
para então os pousar: - Aí, eu era a ave.

Depois, veio o degelo,
E escorremos lentamente
Por entre as pedras
do leito desaguado.
Diluíram-se os corpos,
os risos e as palavras.

E só as pegadas ficaram.